CANAL LITERÁRIO

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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Análise Comparativa de "Emma Zunz" e "O Barril de Amontillado"

1.    Análise comparativa entre os contos: Emma Zunz, de Jorge Luis Borges e O Barril de Amontillado, de E.A.Poe, à luz dos seguintes aspectos:

a.   Estrutura: aponte para semelhanças e diferenças na estrutura do conto – narrador, tempo da narração, espaço, personagens, linguagem;

No conto O Barril de Amontillado, de Edgar Allan Poe, a narração acontece em 1ª pessoa, portanto, o narrador é personagem. Em Emma Zunz, de Jorge Luis Borges, a narração se dá em 3ª pessoa por meio de um discurso indireto. O narrador, por sua vez, é observador.
O tempo em O Barril de Amontillado é marcado como em “uma tarde, quase ao anoitecer, em plena loucura do carnaval”; enquanto que em Emma Zunz a história se passa no dia 14 de janeiro de 1922. Já o espaço no texto de Poe é a adega na casa do personagem Montresor. Na narrativa de Borges, a história se passa na fábrica de tecidos na qual a personagem Emma trabalha.
Em O Barril do Amontillado, os personagens são Fortunato, Montresor e Luchesi. Embora Luchesi não participe efetivamente da trama, são dadas a ele características que o definem como um homem “incapaz de distinguir entre um Amontillado e um Xerez”. Em Emma Zunz, os personagens são Emma Zunz, Fein ou Fain, Manuel Maier, “que nos velhos dias felizes fora Emanuel Zunz”, Aaron Loewenthal, Elsa Urstein e Perla Kronfuss.
Em se tratando da linguagem, ambos os contos apresentam uma narrativa curta em que não há um profundo desenvolvimento dos aspectos psicológicos dos personagens. O Barril de Amontillado e Emma Zunz corroboram as idiossincrasias do gênero conto porque contam os fatos, envolvem o leitor e vão direto ao ponto, sem rodeios.
Segundo Todorov, o princípio gerador da ficção de Poe seria o “superlativismo”, ou seja, a tendência à exploração sistemática dos limites, dos extremos, dos excessos.

No nível estilístico, este princípio estaria evidenciado na abundante presença de superlativos, hipérboles e antíteses. No que concerne aos temas e ideias, a problematização de pares como loucura-razão, humano-animal, natural-sobrenatural, e, sobretudo, vida-morte também seria uma derivação do superlativismo. (Pigmalião às avessas: um conto de Allan Poe. Andrey Pereira de Oliveira-UFCG)

No conto de Poe, há um clima de suspense que surpreende e aproxima o leitor da trama, justamente, porque o texto é escrito em 1ª pessoa. Tal peculiaridade torna o conto muito mais real e auxilia no desenrolar da história. Em Emma Zunz, o suspense começa na ocasião em que a protagonista liga para a vítima da vingança dizendo ter informações sobre a greve dos funcionários da fábrica. E a partir de então, ela age conforme os seus planos que ainda são desconhecidos pelo leitor, uma vez que num primeiro momento não há pistas. Em contrapartida, Edgar Allan Poe conduz o leitor a perceber os sinais dessa vingança. Montresor, por exemplo, encaminha a vítima para a adega e oferece-lhe mais vinho.
Em O Barril do Amontillado, existe a ideia de que o protagonista conta a história de vingança para alguém como se houvesse a necessidade de confessar suas ações impiedosas. Isso é reforçado pela escolha, mais uma vez, da narrativa em 1ª pessoa. Em Emma Zunz, por sua vez, a ausência de um confessor é endossada pela escolha da narração em 3ª pessoa. Observa-se ainda que o conto Emma Zunz não apresenta marcas de um possível arrependimento ou sentimento de culpa da personagem.

b.   Tema: vingança;

Em O Barril do Amontillado, o personagem Montresor revela-se injuriado e insultado pela vítima. Em um primeiro momento, possivelmente a um confessor, Montresor questiona a natureza do seu caráter e supõe que não houvera proferido qualquer ameaça à vítima. E ele reforça: “No fim, eu seria vingado.” Nessa passagem do conto, portanto, há uma semântica discursiva porque existe uma relação de duplo sentido.
Nota-se que em O Barril do Amontillado a vingança se deu também por causa da falta de pagamento de uma dívida. “(...) e seria tolo que o pagasse como sendo de Amontillado antes de consultá-lo sobre o assunto. (...) e preciso efetuar o pagamento”. Até então, o leitor não sabe que Montresor não tem intenção de pagar Fortunato, nem com Amontillado nem com dinheiro, devido à sequência dos fatos.
Por meio de uma linguagem figurada, Poe usa o núcleo do título do conto – a palavra barril – para representar o desfecho da história. O barril representa o engodo para que Fortunato, a vítima, fique tentado com a possibilidade de ter um barril de Amontillado, como forma de pagamento, agindo exatamente conforme os planos de Montresor.
Em Emma Zunz, a notícia do suicídio do pai desencadeia o estopim para a vingança. A personagem se aproveita de uma situação na qual a fábrica está em greve para manipular a vítima e cometer seu ato atroz de vingar-se. Emma simula a cena do crime também, já que a cena da morte acontece quando a personagem desabotoa o paletó da vítima e tira seus óculos. Existe, logo, aquilo que o Direito chama de cogitação e atos preparatórios.   

c.    Símbolos e metáforas;

Em O Barril do Amontillado, o brasão da família é um símbolo que representa a compreensão do conto. Nesse brasão, há um enorme pé com uma serpente rampante cujas presas estão ferradas no calcanhar. A legenda Nemo me impune lacessit (Ninguém me fere impunemente) é a representação do significado desse brasão porque, ao mesmo tempo em que o pé esmaga a serpente, o veneno da cobra entranha pelo corpo e mata.
O barril, como já fora dito, representa o desfecho do conto. Observa-se também que na palavra barril em inglês, caso seja retirada a letra C, forma-se o vocábulo ask, que quer dizer pergunta. Há a sugestão de que a resposta para o conto está dentro do próprio barril.
De acordo com o site Wikipédia, a trolha – também conhecida como colher de pedreiro – é o símbolo da benevolência para com todos na maçonaria. A trolha pode ser considerada como um emblema de tolerância e de indulgência com que todo maçom deve dissimular as faltas e defeitos de seus irmãos. A trolha, segundo Plantagenet, é o símbolo do amor fraternal que deve unir a todos os maçons, único cimento que os obreiros podem empregar para a edificação do templo. Há ainda o sentido da expressão passar a trolha que significa esquecer as injúrias ou as injustiças, perdoar um agravo, dissimular um ressentimento, desculpar uma falta.
Em Emma Zunz, há a carta que desencadeia o processo de vingança. Existe ainda o revólver que é um símbolo o qual remete à contemporaneidade do conto, dialogando com o símbolo da colher de pedreiro do conto de Poe. Nota-se, portanto, que Jorge Luis Borges é um leitor de Edgar Allan Poe e constrói um texto que é a própria leitura do autor norte-americano.

d.   Efeito no leitor: Borges consegue traduzir em Emma Zunz o mesmo efeito que em O Barril de Amontillado?

Há o mesmo efeito produzido por Poe porque ambos os contos partem do enigma e não do conto policial. Apesar de o tema ser vingança, não há a ideia de uma vingança qualquer porque o ato de vingar-se deve ser perfeito e impune. Nem Fortunato nem Loewenthal souberam o motivo pelo qual foram mortos. Assim, pode-se concluir que a vingança não se realizou perfeitamente como era pretendida pelos vingadores. Percebe-se que Montresor segue de forma fiel a estrutura do ato nefando porque ignora a condição de sujeito da vítima, restringindo-o à condição de objeto.

e.   Considerações finais.

Em ambos os contos, os autores prendem a atenção do leitor. A linguagem é curta e simples. Apesar de não existir uma descrição detalhada das características psicológicas dos personagens, Emma e Montresor são vistos como dissimulados porque se certificam de que cada vítima receba exatamente aquilo que merece. A teoria da atribuição de Melvin Lerner diz que as pessoas sentem-se mais confortáveis quando pensam que podem controlar as próprias vidas.

Precisamos acreditar que vivemos em um mundo em que as boas ações são recompensadas e as más, punidas, e isso contribui de maneira significativa para nossa sensação de que é possível prever, conduzir e, em última análise, controlar os acontecimentos. Essa “hipótese de um mundo justo” é uma tendência a acreditar que “as pessoas recebem o que merecem.” (O LIVRO DA PSICOLOGIA. Ed. Globo, 2012. p. 242)


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